Rangel Talks: António Guerreiro, Supply Chain Manager da Roche Portugal

Entrevista a António Guerreiro, Supply Chain Manager da Roche Portugal

A gestão de stocks é, sem dúvida, um dos pontos principais. Temos de garantir que não faltam medicamentos aos nossos doentes, porque no fundo é para isso que aqui estamos. Este é um dos grandes desafios neste momento, tanto para a indústria como para a Roche.

ANTÓNIO GUERREIRO

Em 2009, a Rangel foi desafiada pela Roche a criar em Portugal uma empresa de distribuição inovadora na área da saúde. Nasceu, assim, a Unidade Pharma, sendo que o primeiro cliente foi a Roche Portugal. Hoje, passados 11 anos, a parceria continua a ser reforçada. A Rangel expede cerca de quatro milhões de unidades de medicamentos Roche para o mercado nacional, com um nível de serviço superior aos 99,90%. Um trabalho cujo sucesso está baseado numa relação de parceria e amizade, segundo qualifica António Guerreiro, Supply Chain Manager da Roche Portugal, acabando por beneficiar o mercado de distribuição pharma no nosso país. “Aquilo que se começou a criar em 2007, com a equipa da Rangel da altura, e que viu a luz no dia 1 de janeiro de 2009, trouxe sem dúvida nenhuma uma mudança muito grande no paradigma da distribuição de medicamentos em Portugal.”

Quais os atuais desafios logísticos para a indústria farmacêutica? E para a Roche Portugal?

Este tempo que atravessamos e esta pandemia mudam muita coisa. No caso da nossa indústria, algumas empresas viraram-se para as vacinas. Isto faz com que a gestão de stocks seja um dos pontos críticos. Nos últimos anos, as empresas foram-se acomodando e diminuindo as suas fábricas – a Roche também – para que as suas cadeias de abastecimento fossem o mais lean possível. Sendo uma cadeia de abastecimento lean e havendo uma disrupção destas, os stocks sofrem.

Nós também não fugimos a este ponto, embora não estejamos nas vacinas, nem vamos estar. Não é – nem será – o nosso foco, mas temos alguns produtos que sofreram com isto. A gestão de stocks é, sem dúvida, um dos pontos principais. Temos de  garantir que não faltam medicamentos aos nossos doentes, porque no fundo é para isso que aqui estamos. Este é um dos grandes desafios neste momento, tanto para a indústria como para a Roche, sem dúvida nenhuma.

Na Roche Portugal, os desafios são os mesmos, até porque a produção é global. Grande parte do que é produzido na Europa vai para o resto do mundo, exceto os Estados Unidos. Se há um aumento de consumo num outro país, a Europa também sofre com isso.

Que mudanças foram necessárias na Roche Portugal com a pandemia?

Na verdade, não mudámos muito. Enquanto antes tínhamos de reagir a uma situação de ano a ano, agora tivemos de reagir a algumas situações mais críticas de stock. Colocar um produto à frente do outro porque está a ter uma necessidade num qualquer país faz com que haja um atraso dos demais produtos.

Em 2020, principalmente na primeira fase, quando fomos todos para casa, foi notório o aumento do consumo: quatro, cinco e seis vezes superior ao que era normal. Isto também aconteceu nos hospitais. Nós trabalhamos com stocks de segurança, mas nessa altura não foram suficientes. Tivemos de gerir as nossas alocações perante as farmácias, os armazenistas e os hospitais, de forma que o stock chegasse a todo o lado e, de algum modo, tentar receber mais. Mas, tal como Portugal, todo o mundo teve a mesma situação. Andámos a ajustar a corrida às farmácias.

Isso exigiu um trabalho conjunto com a Rangel para dar resposta a uma situação excecional. O que mudou na Roche Portugal com a pandemia e que se irá manter para o futuro?

Nós realmente vendemos mais, a Rangel colocou mais medicamentos no mercado – não só da Roche, mas de muitas outras empresas farmacêuticas. Portanto, houve aqui, sem dúvida, muito trabalho. Um desafio para a Rangel, que teve de se adaptar e sofreu, sem dúvida, em março e abril para conseguir dar resposta ao aumento da procura. Foram tempos difíceis para a Rangel e para o mercado, mas correu muito bem.

Mudou também o facto de muitas reuniões internacionais deixarem de existir, passou a ser tudo virtual. Conseguimos reunir mais gente e de todo o lado. Agora, em reuniões virtuais podemos ter a Ásia e a América ao mesmo tempo. Estes procedimentos vão ficar. Por outro lado, traz-nos mais problemas, passamos a vida em reuniões.

Ao longo deste histórico de mais de 12 anos, em que medida o projeto logístico em Portugal tem sido um contributo para o desenvolvimento ou para a qualificação geral da supply chain global da Roche?

Na supply chain global da Roche, nós somos um país pequeno para poder influenciar muito. A Roche sempre viveu muito centrada nos seus headquarters, onde se fazem as transformações e as mudanças. No entanto, inquestionavelmente, tivemos dois pontos em que fomos muito apreciados.

Desde o início da nossa parceria com a Rangel, conseguimos ter uma monitorização constante da nossa medicação, não só da localização (ponto GPS), mas também da temperatura, muito importante em termos de qualidade. Há 12 anos, ou seja, desde o início, a Rangel apresentou-nos o seu portal e é através deste que fazemos a monitorização. Internacionalmente, durante algum tempo, fomos mostrando aquilo que era feito, e muito bem feito, pela Rangel. Tanto que, hoje, está a ser implementada uma monitorização de todos os transportes que saem da componente global. Não estou a dizer que tenha sido a Roche Portugal e a Rangel a levarem isto, mas é certo que, quando apresentámos isto há 10 ou 12 anos, era uma novidade e ninguém tinha.

Além disso, apresentámos internacionalmente, como desenvolvimento, os eKoolers. Foi uma solução criada pela Unidade Pharma da Rangel e proposta à Roche Portugal. Este sistema mudou a cadeia de frio, garantindo maior segurança, fiabilidade e eficácia no transporte de produtos farmacêuticos. No fundo, deixámos de utilizar caixas de esferovite e passámos a optar por unidades isotérmicas, uma espécie de frigoríficos, que mantêm as temperaturas de forma totalmente autónoma das viaturas. Esta solução não estava a ser utilizados em mais lado nenhum, embora nos transportes internacionais mais longos existam algumas ferramentas parecidas. Mas, em Portugal não estava a ser adotado. Este projeto foi também apresentado num global chain committee anual da Roche, sendo uma das ferramentas que está em cima da mesa para eventualmente ser aplicada noutros países, porque é sem dúvida uma best practice. Portanto, estes dois pontos terão sido aqueles em que nós, pequeninos como somos, conseguimos levar alguma diferença lá para fora.

O mercado está cada vez mais focado e atento às questões ambientais. De que forma a logística da Roche Portugal está a planear um futuro mais sustentável?

Estes e-KOOLER, que acabaram por ser uma solução encontrada pela Rangel, refletem um dos pontos que já preocupavam a Roche há alguns anos: a necessidade de mudar a cadeia de frio e deixar de usar as centenas de caixas de esferovite que estávamos a utilizar. A Roche tem muitos produtos de frio e sentia que era um dos grandes impulsionadores destes consumos. Isto, provavelmente, terá alavancado a Rangel a procurar uma alternativa. No mercado, já existiam os carros com dupla temperatura, mas tinham alguns problemas. É o caso da mudança de temperatura de cada vez que se abrem as portas do veículo. A Rangel sempre achou que era preciso encontrar uma alternativa e procurou uma melhor solução, acabando por propor o e-KOOLER à Roche.

Por outro lado, a Roche global tem olhado para o seu futuro sustentável. Há 11 anos consecutivos que somos considerados a empresa mais sustentável no Dow Jones Sustainability Index. Como um todo, trabalhamos para isso e para a preservação do nosso planeta. Temos mudado a forma de transportar a mercadoria, tentando que seja mais sustentável.

Como classifica a parceria entre a Roche Portugal e a Rangel, que começou há 12 anos?

Temos uma parceria. Não é uma simples relação cliente / fornecedor. É, na verdade, uma amizade que existe entre todos. E o segredo são as pessoas. Cada vez mais, as empresas são as pessoas. Quando começámos esta relação, de cerca de 13/14 anos, foi a interação entre as pessoas que fez a diferença. Sabemos que, quando precisamos de alguma coisa, do lado da Rangel temos sempre alguém que nos ouve e diz “vamos resolver”, seja como for. É esta parceria e amizade que nos faz estar aqui depois destes anos todos. Porque é mais do que uma parceria. É sem dúvida uma amizade e que vai ficar.

Aquilo que se começou a criar em 2007, com a equipa da Rangel da altura, e que viu a luz no dia 1 de janeiro de 2009, trouxe inegavelmente uma mudança muito grande no paradigma da distribuição de medicamentos em Portugal.

Esta relação também permitiu que fossem crescendo e inovando em conjunto.

Sem dúvida nenhuma. Esta distribuição dedicada que a Rangel faz, com viaturas de temperatura controlada para todo o país, não se fazia. Havia em Lisboa, com um ou dois operadores, e pouco mais. A Rangel iniciou este serviço com a Roche e com mais um ou outro cliente, que tinham medicamentos para distribuição, mas não tinham um carro cheio para ir, por exemplo, do Porto a Bragança. Mesmo sem carros cheios para distribuição, a Rangel disse “nós fazemos”. E foi preciso alguma “estaleca” da Rangel, que tinha o know-how logístico e teve de juntar o resto: a Pharma.

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