Como a tecnologia moldará a Logística

Como a tecnologia moldará a Logística

As várias revoluções industriais estiveram na base de momentos de disrupção e grande evolução das sociedades e na vida das pessoas: a invenção do motor a vapor no século XVIII permitiu a mecanização da produção e iniciou o processo de urbanização das populações; no final do século XIX, a eletricidade permitiu a produção em larga escala; no pós segunda guerra mundial, o aparecimento dos computadores lançou a tecnologia digital, o que permitiu iniciar um momento de aceleração, nunca anteriormente vivido, que nos trouxeram a quarta revolução industrial, cuja descrição mais consensual é que consiste na (quase) eliminação das fronteiras entre o físico, o digital e o biológico. Isto é conseguido com um conjunto de tecnologias novas e outras existentes, porém, apenas com as atuais capacidades de computação, foi possível aplicar as mesmas na resolução de problemas mundanos, tais como a IA, a robótica e a híper-conetividade dos sistemas e dos ativos.  

Esta transformação é disruptiva no sentido em que permite a reformulação dos modelos de negócio e dos próprios produtos e serviços, que passam, em boa parte, a ser ou ter uma parte digital fundamental para a experiência do consumidor. 

Principais desafios e impactos da tecnologia na logística 

A logística tem vivido, e também em particular ritmo acelerado nos últimos anos, os impactos dessa transformação. A logística lançou alguns dos mais interessantes e desafiantes use-cases de digitalização que, pela sua exposição direta aos vários atores da cadeia, do produtor ao consumir final, é, por vezes, quem mais influencia a customer experience. Na verdade, a elevada experiência que os consumidores obtêm ao usar plataformas como a Netflix, a Uber e de social media, é, também, esperada nas suas atividades de compra e usufruto de produtos que requerem atividades logísticas. Este facto, tem elevado o patamar de exigência aos operadores logísticos que, não só, têm de perceber quais as tecnologias que os poderão auxiliar na missão, mas também, obter as competências e meios humanos e materiais necessários à eficaz e eficiente execução de programas de transformação digital. 

Cada player fará o seu caminho e tomará as suas decisões sobre para onde canalizará os seus recursos, porém, há quatro áreas que provavelmente estarão de forma consistente no leque de escolhas ou de avaliação atenta: 

Big data / AI 

O mundo gera dados em volumes nunca antes vistos e a atividade logística é um perfeito exemplo disso. Movimentos de armazém; eventos de track&trace de distribuição last-mile e de transporte internacional; sistemas de monitorização de frotas; controlos de temperatura, humidade e geo-localização; entre outros, são produzidos em massa, a toda a hora, e não só os operadores necessitam de conseguir tratar e converter esses dados em informação de visibilidade ao seus parceiros, como terão de saber lidar com o volume de informação e de como capitalizar a mesma com vista ao aumento da sua eficiência operacional e, com isto, ajudar os seus clientes na redução de custos, sem perda, ou mesmo com aumento dos níveis e qualidade de serviço. É nesta área que as tecnologias de Artificial Intelligence e Machine Learning, terão um papel critico a processar estes grandes volumes de dados e a aprender e detetar formas de correlação de dados para que os dados se transformem em informação e consequentemente em conhecimento e sabedoria. 

IoT 

A Internet of Things, que está na base do fenómeno da híper-conetividade, onde os vários ativos estão ligados em rede e em continua monitorização, permite a sensorização de equipamentos e a implementação de estratégias de manutenção preditiva, reduzindo, para tendencialmente zero, o número de horas de paragem de um ativo por motivo de avaria. A monitorização de temperatura, tão importante em setores como o farmacêutico ou alimentar, é outro dos use-cases a apontar. A tecnologia tem evoluído bastante nos últimos anos e temas como a autonomia das baterias dos devices e a cobertura de conetividade tem melhorado, significativamente, o que permite abordar casos mais desafiantes como a monitorização de ativos no transporte marítimo ou aéreo. 

Robotic Process Automation (RPAs) 

Os chamados robots de software são uma tecnologia promissora no sentido em que permitem a automatização de procedimentos numa abordagem low-code/no-code e que em última instância possibilita a cópia/imitação da interação feita por humanos nos User Interfaces de aplicações. O dia a dia de uma operação logística, principalmente em ambiente multi-cliente, está repleta de atividades de introdução e manipulação de dados com diversas fontes e em múltiplos destinos, algumas dos quais não se encontram estruturadas da forma mais desejável, como, por exemplo, ficheiros de Excel. Os RPAs poderão ser uma forma bastante ágil de implementar automatismos e integrações que, através das abordagens tradicionais de integrações de sistemas, poderão não ser viáveis pelo custo e esforço ou mesmo possível, caso se trate de sistemas legacy ou fechados. Por serem plataformas low-code/no-node, a sua adoção e utilização por pessoas sem competências em desenvolvimento de software é bastante facilitado, o que permite, por exemplo, a abordagem a praticas de citizen-development (desenvolvimento de aplicações ou sistemas pelos end-users), o que pode fazer bastante diferença na velocidade e abrangência da transformação digital de uma organização, comparativamente a modelos totalmente centralizados nos departamentos de TI, por norma sub-capacitados para o volume de solicitações a que são sujeitos. 

PIs e Integração de sistemas 

A integração de sistemas a montante e a jusante nos vários pontos das cadeias de valores sempre foi um dos temas centrais das TIs no setor da logística e continua ainda a ser, não obstante das novas abordagens e tecnologias emergentes. É, cada vez mais, um requisito de negócio a integração mais detalhada e abrangente dos sistemas de informação entre os vários parceiros de negócios. Nenhum consumidor final, aquando da sua compra online, prescinde de informação em tempo de real do estado da entrega ou da capacidade de resolver incidência e falhas com recurso a canais digitais, de forma a completar a sua experiência digital. Caminhamos para aquilo que se pode chamar a híper-integração, descrito como uma integração plena do máximo de fluxos ao longo da cadeia de abastecimento. É, por isso, importante que os operadores apostem em arquiteturas orientadas a serviços, servidas por APIs de fácil acesso e utilização de plataformas de midleware agéis e facilitadoras de rápidas, mas ao mesmo tempo, robustas integrações de sistemas, sejam eles com parceiros de negócio ou mesmo internos. Por outro lado, não é de menor importância que os players do setor acordem standards com vista à contenção de custos e esforço no processo de desenvolvimento dessas mesmas integrações, especialmente, num momento em que há uma clara falta de profissionais qualificados e em que as organizações estão sob as maiores provas no que a retenção de talentos diz respeito, nas áreas das tecnologias de informação. 

Os decisores de TI das organizações vivem um momento de prova em que terão de perceber bem de que forma cada uma das tecnologias pode ajudar os seus negócios. Não existe uma fórmula mágica, nem mesmo uma solução one size fits all…cabe a cada um ser o melhor nas suas escolhas. 

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