Indústria Têxtil: Impactos e Oportunidades em tempo de Covid-19

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A indústria têxtil e de vestuário portuguesa tem uma vocação essencialmente exportadora (cerca 85 a 90% da sua produção), e à semelhança de quase todos os setores da economia, sofreu um duro abalo devido à pandemia da Covid-19. Para além do impacto na economia portuguesa, que naturalmente afetou este setor, é importante recordar que os maiores clientes das empresas têxteis nacionais se encontram nos mercados europeus que mais sofreram com a Covid-19, como é o caso da Itália e Espanha.

Para a indústria têxtil, a pandemia da Covid-19 eclodiu no início de uma estação, que é quando se regista o maior volume de vendas, neste caso com as coleções primavera/verão. Perante isto, o impacto da pandemia no setor têxtil e vestuário nacional tem vindo a refletir-se a vários níveis, sendo o mais generalizado e preocupante a quebra na procura, com a anulação, redução ou adiamento de encomendas, e o adiamento de entrega e pagamento de encomendas já entregues, o que obviamente tem consequências nefastas na tesouraria das empresas.

Por esta altura, quer o mercado português, quer os mercados europeus para onde o setor têxtil e do vestuário exporta grande parte da sua produção, ainda se encontram a meio gás, não havendo uma perspetiva exata de quando a atividade voltará ao normal. Este é outro dos desafios que a indústria têxtil enfrenta, a incerteza face à retoma da atividade, não só em Portugal, mas também a nível europeu, onde se encontram os mercados mais relevantes para as empresas têxteis portuguesas.

Exportar Equipamentos de Proteção Individual como oportunidade para a indústria têxtil

De acordo com a AICEP e a Associação Têxtil e de Vestuário de Portugal (ATP), cerca de 50% das empresas do setor terão recorrido ao lay-off, no entanto, houve muitas empresas que souberam reinventar-se, redirecionando a sua produção para o fabrico de produção de equipamentos de proteção individual (EPI), não só para atender às necessidades do país, mas também para exportar para países onde existe escassez destes equipamentos para o combate ao novo coronavírus.

A indústria têxtil e de vestuário portuguesa tem capacidade para produzir diariamente cerca de um milhão de máscaras sociais, segundo declarações do governo, para além de produzir também batas e outros equipamentos de proteção médica. A prioridade das empresas têxteis portuguesas é abastecer o mercado nacional, embora à medida que a capacidade de produção aumenta, a intenção passe por exportar, não apenas para a Europa, mas para todo o mundo.

Os EPI’s são atualmente produtos muito necessários em praticamente todos os países, pois ainda não existe uma cura para a Covid-19, e Portugal pode afirmar-se como um fornecedor estratégico dos mesmos, evitando que o mundo fique dependente da China, que tradicionalmente é o grande produtor deste tipo de equipamentos.

Atualmente, existem cerca de 863 modelos de máscaras comunitárias e 382 materiais e matérias primas certificados pelo Centro Tecnológico Têxtil e Vestuário (CITEVE), aos quais foi atribuído o selo “Máscaras – COVID-19 Aprovado”, permitindo aos consumidores e produtores reconhecer que estes produtos ou matérias-primas foram testadas e validadas por laboratórios acreditados, e que os mesmos oferecem proteção adequada contra o novo coronavírus.

Para Mário Jorge Machado, presidente da ATP, o setor deve encontrar “soluções para colocar a economia a funcionar, e a máscara social é uma delas. É uma oportunidade para a indústria têxtil e uma salvação para a economia.” Face à crescente procura e à escassez de máscaras a nível mundial, exportar máscaras sociais é uma aposta evidente para o setor, e de acordo com Mário Machado, o mercado dos Estados Unidos da América, Brasil e Canadá poderão ser importantes canais de escoamento.

Também o diretor do CITEVE, Braz Costa, corrobora a ideia do presidente da ATP e afirma que “Portugal só não exportará se não quiser, pois já constatámos que existe procura deste tipo de artigos. Temos aqui uma oportunidade de negócio e estou convicto que vamos ter procura”, acrescentando ainda que o Centro Tecnológico Têxtil e Vestuário tem sido contactado por empresas internacionais que procuram confecionadores em Portugal para produzirem este tipo de máscaras.

Ainda de acordo com o CITEVE, a grande oportunidade para a indústria têxtil no que respeita à produção de máscaras sociais pode ir mais além, uma vez que se tem vindo a assistir à aposta na venda deste produto por parte das marcas de moda, como é o caso da Inditex e outras marcas de luxo internacionais. Assim, à semelhança do que já se verifica com o fabrico e produção de vestuário, existem marcas que procuram fabricantes deste produto para inserir nas suas coleções, abrindo oportunidade para as empresas portuguesas assegurarem também a produção de máscaras sociais como acessório de moda.

De acordo com o CITEVE, existem já várias empresas nacionais a tirar partido desta oportunidade, exportando, essencialmente para mercados europeus como Inglaterra, Alemanha, Espanha, França e Holanda. Esta é, sem dúvida, uma oportunidade para o setor têxtil e de vestuário português se posicionar no mercado global como fornecedor deste tipo de artigos.


Referências Bibliográficas:
Revista Portugal – AICEP. COVID-19: O impacto na economia e nas empresas, Nº130, Maio de 2020, Acedido em 04 de junho de 2020, em http://www.revista.portugalglobal.pt/AICEP/PortugalGlobal/Revista130/?page=18
Diário de Notícias da Madeira. Portugal produz um milhão de máscaras por dia e começa a exportar, Acedido em 04 de junho de 2020, em https://www.dnoticias.pt/pais/portugal-produz-um-milhao-de-mascaras-por-dia-e-comeca-a-exportar-EF6205745
Jornal de Negócios. Siza Vieira quer têxtil e vestuário a produzir máscaras para a UE e os EUA, Acedido em 04 de junho de 2020, em https://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/siza-vieira-quer-textil-e-vestuario-a-produzir-mascaras-para-a-ue-e-os-eua
Jornal Eco. Máscaras sociais podem ser a “salvação” do têxtil. Empresas estão de olho na exportação, Acedido em 04 de junho de 2020, em https://eco.sapo.pt/2020/04/17/mascaras-sociais-podem-ser-a-salvacao-do-textil-empresas-estao-de-olho-na-exportacao/

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