Coronavírus: quais os impactos na cadeia de abastecimento?

coronavirus

O surto de coronavírus que está a afetar o mundo começou na cidade de Wuhan, a capital da província de Hubei, na China, considerada o coração industrial do país. Com cerca de 11 milhões de habitantes, Wuhan é conhecida como a “via da China”, devido à sua centralidade, e ao longo dos últimos anos desenvolveu um verdadeiro polo industrial, especialmente das indústrias automóvel, eletrónica e alta tecnologia.

É em Wuhan que se situam algumas das fábricas que produzem peças e componentes destas indústrias e que são importantes fornecedores para o resto do mundo, especialmente para marcas fabricantes de automóveis e de smartphones, que são duas das indústrias cujas cadeias de abastecimento estão já a ser afetadas.

Por outro lado, uma província vizinha de Hubei, Zhejiang, é uma zona muito importante na produção ativa de ingredientes usados na indústria farmacêutica global. Nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 80% dos ingredientes utilizados para produzir medicamentos são provenientes do território chinês.

A China é também o maior produtor de algodão do mundo, o que está a afetar a produção da indústria têxtil a nível mundial, devido à escassez de matéria-prima. Importa também referir que o país tem a segunda maior economia do mundo, com uma participação de cerca de 16% no PIB mundial, pelo que este abrandamento forçado da economia chinesa, devido ao surto de Coronavírus, está a afetar a cadeia de abastecimento de várias indústrias a nível global.

Para agravar a situação, o surgimento deste vírus coincidiu com o Ano Novo Chinês, que este ano se assinalou a 25 de janeiro, e cujas celebrações se estenderam até fevereiro. Naturalmente, as celebrações do Ano Novo Chinês já têm um grande impacto nas importações de bens da China, causando perturbações ao longo de toda a cadeia logística durante cerca de 35 a 40 dias.

impacto do coronavírus nas indústrias e operações logísticas na China
Cenário Normal vs Cenário Atual das indústrias e operações logísticas na China antes, durante e após o Ano Novo Chinês

Regra geral, janeiro e fevereiro são sempre meses de produção reduzida na China, fruto da paralisação do país, pelo que março e abril significam, normalmente, o retomar da normalidade. No entanto, o surto de Coronavírus prolongou a paralisação das indústrias chinesas, e os reais impactos no transporte internacional aéreo e marítimo de mercadorias devem começar a ser sentidos em março, com quebras acentuadas no volume de contentores transportados e consequente paragem de fábricas e empresas devido à falta de peças ou matéria-prima.

Consequências do coronavírus na cadeia de abastecimento

Desde o dia 23 de janeiro de 2020 que as autoridades chinesas impuseram uma quarentena em toda a cidade de Wuhan. Além da paralisação do transporte público, o aviso suspendeu todos os voos de e para a cidade, e proibiu também a entrada e saída de veículos. Para além de Wuhan, há várias outras cidades na China onde também já foi imposto o isolamento, que bloqueou total ou parcialmente os transportes. Neste momento, existem já 78 630 pessoas infetadas e mais de 2700 mortes confirmadas só na China. No resto do mundo, o surto já atingiu 46 países, infetou 3664 pessoas e 57 mortes foram já confirmadas (dados OMS a 28 de fevereiro de 2020).

A rápida propagação do Coronavírus na China e também no mundo está a abalar a economia internacional, nomeadamente as importações e exportações de bens, uma vez que a China é o grande ponto de exportação para o resto do mundo. As consequências desta paralisação e eventual prolongamento são difíceis de prever, no entanto, o impacto na cadeia de abastecimento de várias indústrias já se começou a sentir.

  • Escassez de matéria-prima

Como já foi referido anteriormente, a China é o maior exportador de bens do mundo, e a cidade de Wuhan tem um grande contributo no fornecimento de materiais e componentes para as indústrias automóvel e tecnológica. A escassez de materiais ou produtos acabados para estas indústria já é uma realidade, e algumas marcas fabricantes de automóveis já afirmaram uma quebra nas importações da China. 

  • Restrições no transporte de mercadorias

O isolamento decretado em várias cidades na China bloqueou de forma total ou parcial os transportes, nomeadamente o transporte de mercadorias, que por esta altura é escasso e também mais caro, por força do aumento da procura e falta de oferta.

  • Escassez de mão-de-obra

A quarentena decretada em várias cidades na China levou à paralisação quase total de todos os serviços e operações, nomeadamente de fábricas e empresas responsáveis pela produção de matérias-primas, peças ou componentes. As pessoas foram aconselhadas a permanecer em casa, e nos casos em que isso seja possível, trabalhar a partir de lá. Esta medida pode atenuar os constrangimentos no setor dos serviços, no entanto, no setor industrial a falta de mão de obra é uma realidade.

  • Restrições logísticas

Os hubs logísticos e as redes de abastecimento estabelecidas enfrentam por esta altura fortes limitações de capacidade e disponibilidade. Ainda que exista mercadoria ou matéria-prima neste momento a oferta de transporte é escassa, mais dispendiosa e enfrenta constrangimentos ao longo da rota. Por outro lado, uma grande parte dos contentores utilizados no transporte de mercadorias estão neste momento bloqueados na China. Enquanto não forem desbloqueadas as exportações chinesas, não há colocação de contentores nos outros mercados, o que estrangula as operações de transporte de mercadorias.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, em 2019 a China foi o sexto principal fornecedor de bens de Portugal, com um peso de 4% nas importações nacionais. Embora o impacto que o Coronavírus possa ter nas importações e exportações seja ainda incerto e imprevisível, é expetável uma diversificação de mercados e um aumento dos negócios nos Estados Unidos (especialmente no Canadá), América do Sul, Médio Oriente e Sudeste Asiático.

Por esta altura, torna-se crítico para as empresas tomar medidas para avaliar os riscos e elaborar planos de contingência que permitam mitigar o impacto negativo deste surto no negócio. Neste momento, o foco para as indústrias mais afetadas deve ser a procura de mercados fornecedores alternativos e o reforço de stock.

Referências Bibliográficas:

Supply Chain Management Review – Mitigating Impact of the Coronavirus on Supply Chain, consultado a 28 de fevereiro de 2020

Logistics Management – The Global Economy Update: The coronavirus will dent growth, consultado a 28 de fevereiro de 2020

More Than Shipping – Coronavirus: Latest Updates on Shipping and Logistics, consultado a 28 de fevereiro de 2020

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